Louca ou corajosa?

O Dia das Mães sempre me faz refletir e pensar sobre os rumos que minha vida tomou a partir da maternidade… ontem mesmo já falei sobre as semelhanças entre eu e minha mãe depois que dei à luz meus próprios filhos. E hoje eu tenho um conteúdo EXCLUSIVO para vocês!

Eu, e mais algumas blogueiras da HubMe, tivemos a oportunidade INCRÍVEL de entrevistar Heloísa Schurmann, a mãe (e avó) da aventureira Família Schurmann que atualmente está velejando com a Expedição Oriente.

Partida Expedição Oriente - Família Schurmann

Partida Expedição Oriente – Família Schurmann – Foto de Eduardo Talley

Diante de tantos julgamentos que a maternidade vista de fora permite (??) é impossível ver a história de Heloísa e não pensar no conflito: louca ou corajosa? Largar tudo, velejar com os filhos e marido por 10 anos, uma vida em alto mar, a educação dos filhos, a convivência 24h por dia… Confesso que tinha muitas dúvidas sobre ela e suas aventuras e, após a entrevista só posso dizer uma coisa: nem louca, nem corajosa. “Apenas” apaixonada e focada na realização de um sonho comum, dela com o marido Vilfredo e, depois, com os filhos também.

A ideia de partir e ficar por 10 anos velejando não surgiu do nada. Eles foram “picados” por essa ideia quando ganharam uma viagem ao Caribe. Ambos tinham suas vidas estáveis, financeiramente confortável mas entenderam que precisavam daquilo.

A entrevista segue aqui na íntegra porque dá dó editar… As palavras de Heloísa fluem e nos traz tanta verdade e tantos ensinamentos que quero dividir tudo com vocês.

Espero que gostem, aprendam e se emocionem com ela como aconteceu comigo!

E depois, vejam os posts da equipe da HubMe linkados aqui:

Patrícia Cerqueira – Comida Boa Muda Tudo

Milene Massucato – Diiirce

Beatriz Zogaib – Mãe da Cabeça aos Pés

Adriana Engelmeyer – Materniarte

Então… aproveitem e inspirem-se com tanta sabedoria e verdade em suas palavras!!!

Heloísa Schurmann louca ou corajosa

Foto: Gil Ramos

Louca ou Corajosa?

Eu, ele e as crianças (EEEAC) – Junto com a maternidade sempre vem uma parcela (grande ou pequena) de culpa. Como você administrou isso quando decidiu velejar? Em algum momento chegou a pensar se estava privando seus filhos de algo (socialização, vida em família etc) apesar da experiência de vida incrível que proporcionou a eles?

Heloísa Schurmann: No meu caso específico, acho que essa parcela de “culpa” veio com uma pitada de “medo” (rs). Mas tive tempo para administrar esses sentimentos. Afinal, não foi um ato impulsivo. Ao contrário. Foi muito bem pensado e planejado.

Só para lembrar. Eu e Vilfredo ganhamos de presente da minha mãe: uma viagem para o Caribe. Naquele momento, éramos apenas quatro: eu, Vilfredo e nossos filhos Pierre e David (que era bebezinho). Nessa viagem, fizemos um passeio de veleiro. Nossa! Que sensação maravilhosa!

Ali mesmo, naquela mar lindíssimo do Caribe, prometemos a nós mesmos que voltaríamos um dia com nossos filhos e a bordo do nosso próprio veleiro. Mas para esse “um dia” se tornar realidade, definimos uma data: no aniversário de 10 anos de David.

Seguindo essa ideia, tivemos 10 anos para planejar todos os detalhes, superar sentimentos de “culpa” e “medo” e ainda providenciar um quinto tripulante (rs). Isso porque, três anos depois da viagem ao Caribe e do nosso pacto em alto mar, engravidei do Wilhelm.

Sabe o que era mais incrível (e positivo) nesse processo preparatório? Cada passo que a gente dava em direção à realização do nosso sonho ia eliminando os eventuais pontos negativos da nossa escolha. Todos nós participamos dos preparativos, inclusive os meninos.

Vendo as crianças a bordo se transformando em mini-marinheiros (mini por causa da estatura, hein) afastava qualquer ideia de que estaríamos privando-os de alguma coisa e aumentava a certeza que proporcionaríamos algo maior. Se em casa o quintal era um espaço limitado, no veleiro, o playground passava a ser a imensidão do mar. Se na escola eles conviviam com algumas dezenas de crianças semelhantes, a partir daquela viagem, eles passariam a conviver com centenas, milhares de crianças de culturas e hábitos diferentes.

Então, foram aspectos como esses que ajudaram a enfrentar essa parcela de “culpa” que nós, mães, sentimos. Agora confesso que essa “culpa” só foi exterminada completamente ao ver os homens que se tornaram. Livres, felizes, donos de seus destinos, mas sempre próximos da gente. Acho que é isso, né? Nós, mães, só respiramos aliviadas quando conseguimos ver que nossas crianças se tornaram adultos sem “traumas” (rs).

Família Schurmann

Heloísa, Vilfredo, David, Wilhelm e Pierre
Foto: Luciano Candisani

EEEAC: Quais foram os pontos que colocaram na balança e fizeram decidir pela aventura? Alguma motivação política, econômica? Ou outra?

Heloísa Schurmann: Soube que você tem dois filhos. Minha fonte falou maravilhas das crianças(rs). Então, tente se lembrar da sensação que você sentiu quando ouviu, pela primeira vez, o coraçãozinho deles bater dentro de você. E quando pegou cada um no colo pela primeira vez, alimentou, olhou nos olhinhos etc. São momentos arrebatadores que reforçam a certeza de um amor incondicional, né?

Então, a principal motivação foi o que sentimos naquela primeira experiência num veleiro, lá no Caribe. Eu e Vilfredo comungamos de uma mesma sensação, de um mesmo sonho e a mesma certeza de que realizaríamos esse sonho. E essa certeza ficou mais certeira ainda quando notamos que aquele nosso sonho passava a ser também o sonho dos nossos filhos.

Olha, tínhamos uma vida confortável e estável em Florianópolis. Vilfredo, economista, tinha uma carreira bem consolidada. Eu, professora e dona da minha própria escola de inglês. Mas aquele veleiro no mar do Caribe trouxe uma sensação de liberdade arrebatadora! Queríamos aquela liberdade e a possibilidade de ter sempre algo novo em nossas vidas. Podia ser um pôr do sol com coloração diferente, uma fruta que nunca tínhamos provado no Brasil, uma tradição secular até então inimaginável e por aí afora.

Olha. Pontos como esses desequilibraram nossa balança(rs)!

EEEAC: A relação 24h por dia juntos – marido e filho, num espaço pequeno, pode ser muito prazerosa mas muito desgastante também. Como administram isso?

Heloísa Schurmann: Como sobrevivemos à essa situação há 32 anos??? (rs). Olha Helena, costumamos dizer que nossas aventuras só acontecem por causa do desapego.

Desapegar não é tão simples assim, né? É um exercício que deve ser praticado constantemente e, acreditamos, não só em relação aos bens materiais. Precisa desapegar de sentimentos como orgulho e mágoa. Conflitos acontecem, mas não podem se transformar num fardo. Precisam ser verdadeiramente superados. Se for orgulhoso demais, pode se sentir “ferido” e ficar magoado. Isso corrói.

Então, aprendemos (e continuamos aprendendo) a ser tolerantes, a ter mais amizade, amor, paciência e a dialogar. Essas atitudes ajudam (e muito) a administrar o bom convívio a bordo.

EEEAC: Quando terminou a primeira expedição, que durou 10 anos, como foi voltar? Você também se sentiu pressionada com os rótulos de louca x corajosa? E como foi a vida dos filhos ao retornar? Como se readaptaram?

Heloísa Schurmann: Depois da primeira aventura, nunca mais nos readaptamos. Isso sim (rs). Voltar é sempre gostoso. A gente reencontra pessoas importantíssimas, revisita lugares que são nossas referências. Mas a gente faz isso, trazendo na bagagem as primeiras ideias do que será nossa próxima aventura. Isso se tornou parte da nossa vida. E a essência dos nossos filhos também. Não nos sentimos ETs, forasteiros ou deslocados quando retornamos. Convivemos muitíssimo bem com a realidade em terra. Mas nos tornamos viajantes irrecuperáveis. Todos nós. Somos uma família em movimento constante.

Heloísa e Vilfredo Schurmann

EEEAC: A educação a distância existe bem antes da internet e você fez uso dela com seus filhos. Conte-nos mais sobre as rotinas de estudos e validações do conhecimento já que o mundo formal ainda precisa disso.

Heloísa Schurmann: Quando decidimos realizar nosso sonho, também assumimos o desafio de buscar (e encontrar) soluções para a educação dos meninos. Há 32 anos, qualquer coisa semelhante à internet de hoje só podia ser elemento de uma ficção científica (rs). Mas a realidade da época reservava algumas possibilidades.

Depois de muitas pesquisas, encontramos o método de educação por correspondência de uma escola americana com mais de 100 anos de experiência. Ele seria a base formal de uma metodologia que ganhou nosso toque pessoal. Eu, professora, associei a didática do método à disciplina inserida a bordo.

Os meninos tinham uma rotina de estudos e aulas no veleiro. Cada um tinha um determinado número de redações mensais e muitos trabalhos e pesquisas que complementavam as matérias abordadas pelo método de ensino à distância.

A gente recebia todo o material didático, inclusive, as provas que deveriam ser aplicadas. Detalhe importante: as provas vinham lacradas e assim permaneciam até o momento, local e condição corretos para ser aplicada. Isso era muito legal! Quando a gente atracava em algum lugar, procurava identificar quem era a maior autoridade daquele lugar. Se não era uma cidade com prefeito, por exemplo, podia ser o delegado da região. Em alguns casos, a maior autoridade era o padre da paróquia.

Pois bem. A gente entregava o envelope lacrado para essa autoridade. Ela abria, retirava a prova e as regras que determinavam, por exemplo, o tempo de duração. Então, a autoridade aplicava a prova, permanecendo presente no ambiente até os meninos concluírem. Quando terminavam, eles devolviam a prova para a autoridade, que colocava o material em outro envelope, o lacrava e se encarregava de despachar para o destino correto via correios, por exemplo.

No caso da expedição seguinte, tinha apenas uma aluna. Nossa caçulinha, a marinheirinha Kat. Assim como os meninos, ela tinha uma curiosidade em descobrir o mundo. Mas, na fase dela, a internet já não era uma ficção. Era uma realidade. Limitada, mas real. Uma ferramenta capaz de auxiliar positivamente o aprendizado.

Como professora, ambas as experiências foram incríveis. Primeiro, apenas três alunos. Depois, uma aluna, que tinha uma professora só para ela (rs). O aproveitamento e o aprendizado se tornaram personalizados e os resultados foram ótimos.

Pierre foi para a Flórida fazer faculdade aos 18 anos, depois de três anos vivendo a bordo.Quando David decidiu desembarcar e viver na Nova Zelândia, ele ingressou tranquilamente na universidade. De volta ao Brasil, Kat também não teve qualquer dificuldade em se adaptar ao ensino tradicional na escola. Esses resultados, claro, deixaram a mãe livre de qualquer “culpa” (rs).

Heloísa Schurmann - louca ou corajosa

EEEAC: Ver a sua história nas telas do cinema, depois do livro, deve ser emocionante. Como está a expectativa em relação ao lançamento? E as expectativas da mãe que tem o filho como diretor desse filme?

Heloísa Schurmann: Ah! Você me entenderá perfeitamente! Minha fonte secreta (rs) disse que sua filha é uma artista. Soube que a pequena Isa desenha maravilhosamente – gente, quanta generosidade!!!. Parabéns! Sabe, Helena, eu tenho muito orgulho dos meus filhos. Pierre é um empreendedor independente; David um cineasta admirável, Wilhelm um campeão mundial de windsurfe, e Kat… Ah! Kat era, ou melhor, ainda é brilhante!

As expectativas para o filme são as melhores possíveis! Acompanhei os preparativos, a escolha de elenco, a formação da equipe e consegui até espiar um dia de filmagem. Quando David vem nos encontrar, mostra cenas do filme que está em fase de finalização. É de arrepiar! O filme não é uma adaptação do livro que escrevi. Mas tem a mesma história inspiradora. E que história! Kat foi um presente em nossas vidas. Kat é presente nas nossas vidas. Acredito que o filme vai refletir a força e a doçura da nossa relação e dos outros laços que rodeiam Kat.

Tenho certeza que o público vai se emocionar. E não é por que o David é meu filho (não é só por isso), mas o trabalho dele está incrível. Justifica todo o meu orgulho por ele.

EEEAC: Para encerrar, vemos muitas pessoas hoje, com a situação do Brasil, querendo sair do país, mudar de vida, recomeçar. Ainda que não seja velejando, qual o principal conselho que daria às pessoas que pensam em dar um novo rumo às suas vidas?

Heloísa Schurmann: Dificuldades aparecem com frequência no caminho de todos nós. Preferimos classificar essas eventuais “dificuldades” justamente como “desafios”. Mares tranquilos são gostosos para se navegar. Mas enfrentar e vencer tempestades garantem ainda mais emoção e orgulho para toda a equipe.

Em nossa trajetória, enfrentamos muitos desafios, que foram vencidos com persistência, confiança, união e respeito. Somos uma família unida, mas, acima de tudo, formamos uma tripulação unida.

Nossos sonhos são realizados porque acreditamos nos mesmos sonhos e nos empenhamos para alcançá-los. Nos planejamos, nos organizamos, nos dividimos em diferentes tarefas e confiamos no potencial de cada um para aquela tarefa específica. A união, a confiança e o respeito que temos um pelo outro nos leva, literalmente, longe.

E lembre-se: sempre terá alguém no seu caminho, que vai tentar de convencer que você está louco, que não dará certo etc. Mas se você tem e acredita em seu sonho, em seu projeto, então, planeje e prepare-se para ele. O sonho não acontece por si só. Ele se torna real a partir do seu empenho.

Sabemos muito bem que transformar um sonho em realidade não é tão simples e romântico como pode parecer. Lembramos mais uma vez: sempre haverá tempestades. Elas são inevitáveis. Mas, com perseverança e muito trabalho, aliados à ousadia, se chega a um porto seguro. Confiança, planejamento e coragem!

Heloísa e Vilfredo em Hong Kong

Heloísa e Vilfredo em Hong Kong

Estou realmente emocionada e feliz com essa entrevista.
Espero que as palavras de Heloísa tenham te tocado também porque eu fiquei encantada com seu carisma e generosidade!!!

Obrigada Heloísa e toda equipe da Expedição Oriente, do veleiro e daqui também!!

Beijos e um excelente (e inspirador) Dia das Mães!

Lele

Acompanhem a Família Schurmann e a Expedição Oriente:
No Facebook: https://www.facebook.com/familia.schurmann
Site da Expedição Oriente: http://www.expedicaooriente.com.br/

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18 comentários em "Louca ou corajosa?"

  1. Patricia disse:

    Lindo e inspirador. Estou encantada com a Heloísa. Tive curiosidade de saber como ela lidou com a educação à distância dos meninos. Muito bom saber que existem escolas abertas para o mundo.

    1. MUITO legal a receptividade dela com a gente e como ela soube lidar com tantas situações diferentes ne?
      bjs

  2. Gabis Miranda disse:

    Estou de queixo caído, que mulher incrível e CORAJOSA!

    1. Corajosa, determinada, leve, segura…
      beijos

  3. A cada entrevista, perguntas interessantes e respostas mais cativantes… Adorei entender a questão do ensino à distância, a disciplina envolvida! Família nota 10!!!!

    Beijocas

    1. Demais mesmo!
      Seriedade e comprometimento ne?
      beijos

  4. Adri disse:

    A história de vida da Heloisa é sensacional. Adorei a entrevista Lele. Aprendemos muitas coisas importantes com esse pouquinho de conhecimento que ela nos proporcionou

    1. Sem duvida Dri!
      Amei o seu bate-papo com ela tb!!!
      beijao

  5. Tatiana disse:

    Nossa quanta coragem, e um pouquinho de loucura, sim.
    Admiro e confesso que as vezes gostaria de fazer o mesmo. Sai viajando o mundo sempre foi o meu sonho, mas sempre tem os mas…

    1. O mais legal Tati é ver o quanto eles se planejaram para a 1a aventura e como isso se tornou o projeto de vida deles mesmo!!!
      beijos
      Lele

  6. Adorei o post, eu queria ter um pouco dessa coragem e loucura

    Bjs Mi Gobbato
    http://espacodasmamaes.blogspot.com.br/

    1. Verdade!!! Na verdade acho que a melhor palavra é DETERMINAÇÃO!!
      beijos

  7. OI Lelê, que oportunidade incrível fazer essa entrevista! Admiro muito essa mulher e essa família. Um sonho de muitos, mas que pouco realizam. Planejamento é tudo.
    Adorei.
    beijos
    Chris

    1. Verdade Chris
      a gente acha que “deu na louca” e sairam velejando mas foi uma ideia amadurecida e planejada ne?
      beijao
      Lele

  8. Nossa, ainda não tinha ouvido falar sobre essa mulher, mas achei a história de vida dela e a forma determinada com que foi atrás de seu sonho, uma verdadeira inspiração.

    Bjos
    http://www.maternizando.com/

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